Insegura(o) na vida? Conhece o conceito de "desamparo aprendido".

Atualizado: 31 de jul. de 2021

Na década de 70, o psicólogo Martin Seligman, considerado o pai da Psicologia Positiva, descreveu um conceito comprovado por mais de 300 estudos, ao qual chamou de ‘’desamparo aprendido’’.


Explicando a base do conceito de forma resumida: se alguém experimenta situações desfavoráveis por muito tempo, acaba por se sentir impotente para lidar com elas, acreditando que não terá controlo diante de situações futuras semelhantes. Isto significa que, depois de algumas repetições, mesmo tendo a oportunidade de mudar a situação, a pessoa torna-se passiva porque ‘aprendeu’ que era impossível fugir ou mudar os resultados (sendo que esse comportamento passivo acaba por tornar-se um hábito).


O sentimento de desamparo


Como falamos, o desamparo é o sentimento de impotência diante das situações vivenciadas, fazendo com que a pessoa comece a perder autonomia, inibindo a capacidade de resiliência, desenvolvendo um padrão de vítima e podendo tornar-se depressiva, desistindo de tentar e sentindo-se totalmente desamparada. Em algum nível, todos nós já nos sentimos assim, verdade?


Mesmo sem saberem, várias mulheres chegam aos meus atendimentos com a convicção de que, façam o que fizerem, as suas atitudes não terão qualquer efeito e não conseguirão nunca escolher uma vida mais alinhada com aquilo que as satisfaz.


O que promove este sentimento são os nossos ‘estilos explicativos’, isto é, as afirmações e respostas que nos damos (através dos nossos diálogos internos) quando vivenciamos situações desafiadoras em algum nível (e principalmente desagradáveis) na nossa vida.

Quando alguém desenvolve um padrão de desamparo aprendido, tem um estilo explicativo (um diálogo interior sobre a experiência vivida) permanente, abrangente e personalizado.


Exemplo:


Digamos que parti uma peça de decoração de família da qual gostava muito.


Diante do meu desamparo, posso dizer-me coisas como: “sou mesmo estúpida!”.


O estilo explicativo que utilizei é permanente porque eu disse que “sou”; é abrangente porque, se ‘’sou mesmo estúpida’’, tendo a considerar-me estúpida em todos os aspetos da minha vida; e, finalmente, é personalizado porque tenho a certeza de que a culpa é minha, independentemente do contexto (não tento observar outros indicadores ou motivos que podem ter levado àquele resultado).




Segundo a Psicologia Positiva, para transformarmos o nosso estilo explicativo e olharmos para a vida de forma mais capacitada e otimista, precisamos substituir esse diálogo interno por uma definição da experiência como tendo sido passageira, específica e externa (eu gosto de chamar a este terceiro ponto de despersonalizada).


Para o mesmo exemplo poderíamos ter uma explicação interna distinta:

Passageiro (não permanente): ‘hoje o meu dia não foi bom, mas amanhã será melhor’;

Específico (não abrangente): ‘o único acontecimento desagradável do meu dia foi o facto de ter partido a peça’;


Externo (não personalizado): a análise do contexto – ‘quando o telefone tocou assustei-me e, por isso, derrubei a peça’.


Este é o caminho para desencorajarmos o desamparo aprendido: aprendendo a criar outras explicações e evidências para as nossas experiências que não criem distorções, omissões ou generalizações sobre a realidade, limitando a nossa interação com a vida.


Para suportar isso, a ciência já demonstrou também que independentemente da predisposição genética (que sim, também existe e não deve ser ignorada), podemos modificar os nossos estilos explicativos para aprendermos a desenvolver uma mentalidade positiva.


Resumo do conceito (para sedimentarmos conhecimento):


(1) é fundamental olharmos para situações passadas como sendo individuais, específicas e únicas (o que significa que, se em alguma circunstância, falhaste ou sofreste algum dano, não quer dizer que isso irá acontecer novamente).


(2) reconhecendo que temos um padrão explicativo negativo, precisamos estar atentos a sentimentos de culpa ou de inferioridade que podem ter sido gerados nestas situações e que se tornaram convicções unicamente porque repetimos o mesmo discurso demasiadas vezes.


(3) importa dar um novo significado a esses acontecimentos que causaram desconforto, reanalisando-os através da lente do novo estilo explicativo (é: o otimismo treina-se e recomenda-se em boas doses diárias).


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